1h30 da manhã. Mergulhada em mais um Jane Austen, vejo um ser voador entrar no meu quarto. Salto gritando da cama e tento me esconder debaixo dela. Fecho a porta na primeira oportunidade, choro, grito e sozinha decido enfrentar o intruso (seria um pássaro noturno? Um morcego? Uma borboleta negra e gigante?). Acendo todas as luzes da casa, vasculho cada canto e nada. O que quer que fosse saiu pela mesma janela que entrou. Ligo para os meus pais assustada, chorando, querendo colo. Forço-me a ler novamente e adormeço somente após às 5h.
Dias antes, assumo um novo cliente. Grande conta, grandes responsabilidades, grandes cobranças. Junto dele, cai do no meu colo um evento enorme, repleto de palpiteiros e muito pouca gente com vontade de pôr a mão na massa. Ao ver que a confusão está crescendo, decido “pôr o pau na mesa” e arranjar minha primeira discussão. Depois de muita pressão, peço, às 20h, a benção do chefe. Volto ao trabalho uma hora depois e só finalizo as pendências à meia-noite, com promessa de muito trabalho no fim de semana.
O que os dois fatos têm em comum? Ambos me deixaram insegura, precisando de uma palavra amiga, que dissesse “está tudo certo”, “calma, vai passar” ou “você fez o que pôde”. Nos dois casos, o ombro amigo não acalmou meu coração. A tensão continuava lá, enquanto a insegurança foi trocada por uma cobrança ainda mais cruel (“você precisava pedir ajuda? Não podia resolver sozinha? Sua fraca!”).
E é assim que vivo. A minha própria cobrança, chamada também de responsabilidade exacerbada, é minha pior inimiga. É ela a culpada pelo meu cansaço físico e mental. Eu também a culpo pela quase ausência de vida social. Quando não está focada em trabalho, minha mente encontra alento em filmes, seriados, músicas, refeições tranqüilas em um lugar calmo ou no aconchego do lar e cama. Muita cama. Alterno períodos de insônia com outros de muito sono e inércia.
Não culpo os amigos que não entendem esse estilo de vida. Nem eu considero o ideal. Só queria compreensão. O boteco perdeu a graça: não quero encher a cara enquanto falo de trabalho, de planos, de vida amorosa ou divido fofoquinhas; por mais egoísta que isso possa soar, não quero escutar reclamações e infelicidades de ninguém. Não preciso escutar que estou ausente, que sumi, que isso ou aquilo.
Chega!
Cobrança já basta a que vivo no trabalho e a minha própria. Preciso de paciência e leveza de espírito; de alguém que me tire do cotidiano, faça minha mente pensar em outras coisas, arranque gargalhadas.
Repreendo-me muitas vezes pensando que estou sendo egoísta, mas prefiro pensar que estou delimitando meu espaço. Aos poucos, irei expandir meus domínios, impor minhas vontades e retomar meus sonhos... ganha meu coração quem respeitar e me ajudar a conquistar a minha liberdade!