Tudo bem que não era hora de mocinha estar andando sozinha pela Angélica. Mas ontem, estava eu tranqüila, caminhando de volta pra casa, quando fui abordada pelo lado esquerdo por um sujeito:
... telefone. E não grita ou eu dou um tiro na tua cara.
Eu não tinha ouvido o início da frase, mas com o final, desconfiei que se tratava de um assalta e lentamente olhei para o sujeito, que nem fez questão de esconder a mão para fingir que levava uma arma. Incrédula – e isso devia estar estampado no meu rosto - a única coisa que me passou pela cabeça foi: mas esse cara nem está armado!
E tudo foi tão rápido que parece que foi ao mesmo tempo. E talvez tenha sido. Ele falou firme: você vai querer levar um tiro na cara por causa de um celular.
Não, respondi ainda incrédula, quando senti alguém pegar o celular da minha mão direita. Percebi, então, que eram dois e pensei que a arma podia estar com este segundo, talvez. Embora tenha achado a estratégia meio burra – se vai assaltar com arma, que a use no elemento surpresa, não? – achei prudente entregar.
A cena ficou, então, em câmera lenta. Com a mão do assaltante tocando ainda a minha, deslizei no ar o telefone até ele, olhando para o aparelho (a gente nunca pensa em fazer o reconhecimento do assaltante depois) e pensando na perda dos contatos, das mensagens do gatinho e das fotos proibidas que já fiz em momentos de bebedeira. Quase pedi para ficar com o chip, mas as palavras não saiam.
De súbito, tudo voltou à velocidade normal e saímos em direções opostas. Eu segui meu caminho, os meninos deram meia-volta. Quase dois passos e eles me chamam decepcionados.
Toma. Pode ficar. Não quero, não.
Assinei meu atestado de pobreza. Nem o ladrão quer meu celular 2005 modelo 2004. Mas tenho todos os meus contatos, as mensagens, as fotos proibidas...


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